quinta-feira, 28 de março de 2019

A confissão sacramental

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"...soprou sobre eles dizendo-lhes: ‘Recebei o Espírito Santo. Àqueles a quem perdoardes os pecados, lhes serão perdoados; àqueles a quem os retiverdes, lhes serão retidos." Com esse gesto e com essas palavras, Jesus Cristo instituiu o Sacramento da Confissão e a vida dos pecadores arrependidos sobre a face da Terra nunca mais seria a mesma.

No Antigo Testamento, também havia a confissão a um sacerdote, também havia o perdão dos pecados, então qual a diferença fundamental para o Novo Testamento? No Antigo Testamento, os sacerdotes não podiam perdoar os pecados. O sacerdote executava um rito prescrito por Deus na lei mosaica, sacrificando um animal no lugar do pecador, ou do povo inteiro, uma vez por ano. Como vemos no Levítico:

“Se for alguém do povo quem pecou involuntariamente, cometendo uma ação proibida por um mandamento do Senhor, tornando-se assim culpado, trará para sua oferta uma cabra sem defeito, pela falta cometida, logo que tiver tomado consciência de seu pecado. Porá a mão sobre a cabeça da vítima oferecida pelo pecado e a imolará no lugar onde se imolam os holocaustos. Em seguida, o sacerdote, com o dedo, tomará o sangue da vítima, e pô-lo-á sobre os cornos do altar dos holocaustos, derramando o resto ao pé do altar. Tirará toda a gordura, como se fez no sacrifício pacífico, e a queimará no altar, como agradável odor ao Senhor. É assim que o sacerdote fará a expiação por esse homem, e ele será perdoado. Se for um cordeiro que oferecer em sacrifício pelo pecado, oferecerá uma fêmea sem defeito. Porá a mão sobre a cabeça da vítima oferecida pelo pecado e a imolará em sacrifício de expiação no lugar onde se imolam os holocaustos. Em seguida, com o dedo, tomará o sacerdote o sangue da vítima oferecida pelo pecado, e o porá sobre os cornos do altar dos holocaustos, derramando o resto do sangue ao pé do altar. Tirará toda a gordura como se tirou a do cordeiro do sacrifício pacífico, e a queimará no altar, entre os sacrifícios feitos pelo fogo ao Senhor. É assim que o sacerdote fará a expiação pelo pecado cometido por esse homem, e ele será perdoado”.

Porém, no Novo Testamento, Jesus Cristo é ao mesmo tempo o sacerdote e a vítima. Por ser Deus encarnado, Ele tem o poder de perdoar os pecados, o que causou escândalo aos escribas. E repassou esse poder aos Apóstolos e seus sucessores, os bispos e presbíteros. Ou seja, diferentemente dos sacerdotes da Antiga Lei, os bispos e presbíteros – em comunhão com a Igreja e com as devidas autorizações - têm o poder de perdoar pecados em nome de Jesus. Mais do que isso: ao ministrar o sacramento, o sacerdote o faz na pessoa de Cristo, ou seja, não é ele quem está agindo, mas o próprio Cristo.

Costuma-se chamar a esse sacramento por cinco nomes: sacramento da conversão, sacramento da confissão, sacramento da penitência, sacramento do perdão e sacramento da reconciliação; e é interessante notar que cada um desses nomes corresponde a uma das fases que o penitente passa. Primeiro, a conversão. Em algum momento, após o pecado e afastamento de Deus, ocorre o arrependimento e a decisão de buscar o sacramento. A pessoa vai até o sacerdote e se confessa (sacramento da confissão); o sacerdote lhe impõe uma penitência (sacramento da penitência); em seguida, lhe diz a fórmula de absolvição, que efetivamente lhe concede o perdão dos pecados (sacramento do perdão); e partir daí, então, se dá a reconciliação do pecador com Deus (sacramento da reconciliação).

Mas talvez o verdadeiro e mais apropriado nome desse sacramento seja sacramento da misericórdia. A fórmula de absolvição em uso na Igreja latina inicia dizendo: “Deus, Pai de misericórdia”. Cada etapa citada anteriormente é fruto dessa misericórdia: Deus quer a nossa conversão, Deus quer a nossa confissão, Deus quer a nossa penitência e, por fim, Deus quer nos perdoar e nos reconciliar com Ele. Reparem que a fórmula não diz “Pai DA misericórdia”, mas sim “Pai DE misericórdia”. Claro, porque Deus é Pai, é o nosso Pai. Santa Faustina Kowalska, cujos escritos deram origem à devoção da Divina Misericórdia, disse que a justiça e a misericórdia são atributos divinos que se complementam, porém a misericórdia de Deus engloba e ultrapassa a Sua justiça. A misericórdia e bondade de Deus para com o pecador é inabarcável para a nossa inteligência limitada e o nosso coração endurecido, tão ávidos por justiça, quando não – sejamos sinceros – vingança pura e simples.

Existe um mandamento da Igreja que diz: “Receber o sacramento da Eucaristia ao menos pela Páscoa da ressurreição”. E esse mandamento está diretamente ligado com outro que diz “Confessar-se ao menos uma vez por ano”. Mas ora, aqui nós estamos falando estritamente do mínimo necessário, e o verdadeiro amor desconhece os mínimos. Os sacramentos são os canais ordinários da graça de Deus, e desta nós não queremos o mínimo, mas o máximo. Devemos, portanto, procurar aumentar a frequência com que buscamos esse sacramento, até chegar à “dose”, digamos assim, semanal.

O que confessar? Nesta ordem de importância: pecados mortais, pecados veniais, defeitos. A confissão frequente não só perdoa os pecados, como nos dá força na luta contra eles. Então é de se esperar que esta ordem se observe - aos poucos, e a muito custo, claro - no caminho rumo à santidade.


Nossa Senhora, Mãe de misericórdia, nunca pecou e, portanto, nunca precisou se confessar. Mas ninguém melhor que ela sabe interceder junto a Seu Filho pelo perdão dos pecadores. Que Ela nos ajude, agora e na nossa de nossa morte, a fazermos boas confissões, e assim recebermos a graça de Deus.

terça-feira, 26 de março de 2019

O escândalo da infidelidade



"Como pode haver padres que não são fiéis à Igreja? Justo padres?", me perguntava um amigo, perplexo e escandalizado, e com razão.

Refletindo a respeito, é possível ficarmos ainda mais perplexos ao nos darmos do conta do seguinte: como pode um homem, que passou três anos convivendo com Jesus Cristo, que O viu curando cegos, paralíticos e leprosos, que O viu andar sobre as águas e acalmar uma tempestade, que O viu até ressuscitar os mortos, depois de tudo isso, ainda O trair por dinheiro?

Como pode que, todos os apóstolos, com exceção de um, abandonaram o Mestre no momento mais difícil, deixando-O sozinho com Seus inimigos?

Como pode que, justo aquele que Jesus nomeou chefe da Sua Igreja e lhe deu o poder das chaves, O negou três vezes diante do homens?

Mas a verdade é que, nós também, somos culpados do mesmo crime. Como pode que, depois de 2000 anos, mesmo vendo os frutos inegáveis do Cristianismo, o edifício civilizacional gigantesco erigido com o sangue dos mártires e o exemplo dos santos, a profusão de milagres documentados, e principalmente, a ação de Deus em nossas próprias vidas, ainda assim, diariamente O traiamos, O abandonemos e O neguemos?

Que possamos estar mais atentos a isso, e peçamos perdão com um coração verdadeiramente contrito.

terça-feira, 19 de março de 2019

Resposta ao tempo


Uma das canções mais belas da MPB é “Resposta ao tempo”, composta por Aldir Blanc e Cristóvão Bastos e interpretada em sua versão mais famosa por Nana Caymmi.


A letra descreve o diálogo entre o misterioso narrador e a figura etérea do tempo.

Batidas na porta da frente
É o tempo
Eu bebo um pouquinho
Pra ter argumento...

O tempo vem ao encontro do narrador, que precisa usar de um pequeno expediente para ter coragem de enfrentá-lo. Não é assim conosco também? Quando temos 20 e poucos anos, a vida parece longa e cheia de possibilidades. Um belo dia, recebemos a fatídica visita do tempo: em um lampejo, às vezes atrelado a uma doença ou limitação física, percebemos que não somos mais jovens como antes, que a vida que nos resta pela frente está se esvaindo, inexoravelmente, como a areia na ampulheta. Nesse momento, infelizmente muitos escolhem virar as costas e fingir que não é com eles. Mas não passa de um autoengano, porque como já disse W.H. Auden:



Sim; talvez beber um pouquinho, que seja, mas enfrentar o tempo e suas armadilhas, com coragem e dignidade.

Mas fico sem jeito
Calado, ele ri
Ele zomba do quanto eu chorei
Porque sabe passar
E eu não sei

O narrador alude a uma dor que mais adiante deixará explícito se tratar de um amor perdido. O tempo faz troça da situação e o narrador confessa ao mesmo a superioridade daquele e a sua incapacidade de superar o ocorrido. O tempo sabe passar, o narrador, não; isto é, ele não consegue abandonar suas memórias. Não importa quantas vezes alguém diga para outro: “esqueça fulano(a)”, sabemos que não é assim que a coisa funciona.

Num dia azul de verão
Sinto o vento
Há folhas no meu coração
É o tempo...

As folhas no coração do narrador podem ser memórias, dores, cicatrizes.

Recordo um amor que perdi
Ele ri
Diz que somos iguais
Se eu notei
Pois não sabe ficar
E eu também não sei...

Aqui começam, para mim, os enigmas da letra. Por que o tempo diz que o narrador, assim como ele, não sabe ficar? Por ser humano e, portanto, efêmero, mortal? Porém, essa resposta não me satisfaz plenamente, pois mais adiante eu questiono se o narrador é realmente humano...

E gira em volta de mim
Sussurra que apaga os caminhos
Que amores terminam no escuro
Sozinhos...

O tempo parece de alguma forma querer subjugar e humilhar o narrador, em parte através de uma descrição inegável de sua força, em parte através de uma mentira disfarçada sob uma camada de cinismo.

Respondo que ele aprisiona
Eu liberto
Que ele adormece as paixões
Eu desperto...

Aqui é que a coisa começa a ficar realmente interessante. O narrador finalmente responde aos ataques do tempo, e à altura: já não parece mais se tratar de um mero ser humano, mas uma entidade superior, com poderes sobre aqueles. Mas quem ou quê? Quem liberta? Quem desperta as paixões? Uma criatura angélica? Outra entidade abstrata, como a alegria, a dor, o medo? Ou talvez eu esteja indo longe demais nas minhas elucubrações e o narrador esteja apenas se referindo às suas próprias paixões. Quem tiver alguma ideia, por favor comente.

E o tempo se rói
Com inveja de mim
Me vigia querendo aprender
Como eu morro de amor
Prá tentar reviver...

A resposta ao tempo surtiu efeito, e este foi abalado em sua confiança. O tempo agora não quer mais passar. Também quer ficar e sofrer, quer aprender a amar, e morrer.

No fundo é uma eterna criança
Que não soube amadurecer
Eu posso, e ele não vai poder
Me esquecer...

Ao cabo, é a vez do narrador dar uma lição de moral no tempo. Sim, quem não ama, quem não sofre, não sabe amadurecer. Só quem ama e morre de amor é capaz de se esquecer a si mesmo na contemplação do objeto amado, a ponto de perder a noção do tempo. O tempo, passageiro como é, só pode observar e lembrar.

sábado, 16 de março de 2019

O ato de amor


Todo verdadeiro ato de amor não tem justificava, pois é um fim em si mesmo; e todo ato humano desemboca necessariamente em um ato de amor. 

Por exemplo: por que o sujeito levanta cedo, contra o desejo do seu corpo, que é o de continuar dormindo? Ele levanta cedo porque quer ir trabalhar; quer trabalhar porque quer ganhar dinheiro; quer ganhar dinheiro para sustentar sua família; quer sustentar sua família para que sua mulher e seus filhos não morram. 


Mas por que ele quer sua mulher e filhos não morram? Por que ele quer que eles sigam vivendo? É aqui que a cadeia de justificativa encerra-se necessariamente: porque ele ama. E para isso, o amor, não há justificava, não há explicação, há somente constatação: ele os ama e pronto.

Esse amor é reflexo e participação do amor divino. Exemplo análogo é a Criação: Deus criou o Universo por puro amor. Não há necessidade, não há motivo ulterior.

Em contraponto a isso, quando pecamos, a cadeia de justificativas de nossos atos também termina em uma espécie de ato amoroso, porém desordenado: o amor demasiado de si mesmo, uma caricatura de amor. O sujeito que matou alguém injustamente terá mil e uma justificativas para seus atos, mas no fim das contas, a explicação é uma só: ele amou mais a si mesmo do que a Deus e ao próximo.

Como decorrência de nossa natureza decaída, infelizmente nossos atos, mesmo os bons, sempre vem misturados de intenções mistas, boas e más. Devemos refletir sobre eles de forma a contar para nós mesmos em forma de narrativa interior a justificativa de cada um deles, para no fim descobrirmos se foi um ato mais próximo do verdadeiro amor ou apenas mais um deslize de nossa maldade.

quinta-feira, 14 de março de 2019

A perseverança fiel no trabalho

A perseverança fiel no trabalho é o que verdadeiramente dá frutos no longo prazo, e a sua inimiga é a rotina - a má rotina - aquela sensação enfadonha de estar simplesmente repetindo todos os dias as mesmas coisas, sem chegar a lugar nenhum. Então surge a tentação de imaginar que a solução do impasse é alguma fórmula mágica, um segredo, uma técnica, uma grande campanha disso ou daquilo, um algo um tanto enigmático que está logo ali, depois da curva, esperando para ser descoberto. É uma ilusão.

Não vou negar que existam rompantes de crescimento assombrosos. Mas são a exceção, não a regra. A maioria das carreiras profissionais, empresas, investimentos, estudos etc, quase tudo na vida, demora. DEMORA. E somos impacientes, queremos resultados rápidos. Queremos ver a coisa andando. Mas as coisas boas e duradouras levam mesmo tempo para crescer. O tempo que for necessário. É como uma árvore grande, cujas raízes estão profundas e espalhadas embaixo da terra. Foi preciso muita chuva e muito sol para alimentar a planta. Foi preciso resistir a muito vento, a parasitas, a todo tipo de intempéries e inimigos.

A pontualidade na reunião, aquele telefonema ou e-mail a mais, a paciência e o sorriso esforçado para aquele cliente exigente (chato?), dia após dia, valem mais do que uma miríade de planos mirabolantes que não passam de meras fantasias. Esse sacrifício moroso e escondido não gera notícias e não é visível no curto prazo. Por isso é desprezado na maior parte dos casos. Mas é ele que faz toda a diferença. Quem passa por tudo isso é que sai na ponta do funil dos legados memoráveis enquanto os marketeiros de curto prazo somem como grãos de areia no deserto.

quarta-feira, 13 de março de 2019

Os dissabores do espírito

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À medida que vamos avançando na vida intelectual/espiritual, gradualmente vamos percebendo que vivemos em um país muito doente, e que também ainda somos indivíduos doentes e temos muito a aprender e melhorar. É comum bater um certo desespero, a sensação de que tudo está perdido, de que nada está bom etc. As pessoas mais próximas de nós, como familiares e amigos, até percebem isso e comentam que estamos muito radicais ou reclamões.

Acontece que ao expandirmos o nosso horizonte de consciência, procurarmos a Verdade, nutrirmo-nos com o Belo e buscarmos realizar (a muito custo, às vezes) a prática do Bem, é natural que sintamos proporcional ódio e repulsa à mentira, ao feio e ao mal. O porco está feliz na lama, não é mesmo? O porco está feliz, porém está na lama. O homem busca a perfeição, e ao perceber que está na lama, revolta-se com essa situação, quer sair dela. Ao se deparar com as dificuldades, a falta de meios de ação, somada a toda feiura, incultura e maldade ao nosso redor, a desesperança pode se instalar em nossas almas.

Devemos rogar a Deus graças para combater essa tentação, para continuar nossa caminhada em direção ao Bem, ao Belo e à Verdade, que no fim das contas, é nada mais que o próprio Deus.

sábado, 9 de março de 2019

A cegueira dos escribas

Acompanho com ávido interesse as contendas intelectuais de sujeitos como Peterson, Zizek, Taleb e outros. Acho sensacional o privilégio contemporâneo de assistir ao debate de ideias praticamente em tempo real, graças a internet.

Porém, a julgar pelo comportamento tanto dos debatedores quanto dos seus admiradores (quase "cheerleaders", em certos casos), parece que foge ao horizonte de todos uma verdade inconveniente: ninguém é bom a não ser Deus. Não existe um lado que tenha obtido a salvação e a verdade pelas suas próprias forças enquanto o outro lado está perdido se não mudar de ideia.

TODOS precisam de Cristo, principalmente os que pensam não precisar. Todos são pecadores, e por mais inteligentes e bem-sucedidos que sejam, essa condição impõe o embotamento da inteligência e o enfraquecimento da vontade, que por sua vez, assim, prejudicam a busca pela verdade.

Isso fica muito claro nos xingamentos públicos que ocorrem nas redes sociais, em especial entre os debatedores. A vaidade toma conta, revelando que por trás de intelectos titânicos estão almas miseráveis, com menor envergadura espiritual que muita velhinha de paróquia.

As acusações mútuas podem gerar visibilidade, mas não contribuem para a conversa. A busca pela verdade é uma associação de irmãos que amam o mesmo bem, não competidores em luta por um prêmio.

A Verdade é uma Pessoa, que quer ser encontrada e amada, mas não às custas do pecado e da perdição das almas. "Se teu olho te escandaliza..." Os santos, muito mais sábios que os intelectuais, sempre tiveram muito claro isto que nos parece tão duro: seria melhor ficar em estado vegetativo e nunca mais poder falar nada sobre o que quer que fosse, do que, em um debate, ofender a Deus em um de seus amados filhos.

quinta-feira, 7 de março de 2019

O empreendedor de carne e osso

Como alguns aqui já sabem - e outros vão ficar sabendo agora - eu abri uma empresa, a www.impactamidia.com.br, em 2007, com 23 anos de idade. Ou seja, bastante entusiasmo e pouco juízo, hehe.

Um dos temas desta página é justamente o empreendedorismo e o mundo dos negócios. Mas eu não estou aqui pra dizer pra vocês, como infelizmente tantos picaretas por aí, que só querem vender cursos, "como eu sou incrível, minha empresa é fantástica e você pode ter tudo isso também (basta clicar no link para assinar/comprar/etc)".

Muito pelo contrário. Aqui você não vai encontrar uma porção de respostas prontas embaladas em um pacote bonitinho. Antes vai encontrar escoriações e cicatrizes. Um lance mais para Seiya de Pégaso do que para Misty de Lagarto (quem sacar a referência deixe um comentário).

Sim, eu tenho algumas respostas, algumas poucas respostas, e não me importo de compartilhar. Ao longo dos últimos 12 anos, com a ajuda de tanta gente (parentes, sócios, clientes, amigos), deu pra amadurecer e descobrir alguma coisa. Mas ainda tenho muitas dúvidas, muitas perguntas, e eu ficaria imensamente grato se você usasse este espaço para conversarmos e trocarmos conhecimento.

Já temos coaches demais. Já temos coaches de coaches demais. Palestrantes motivacionais demais, empreendedores que foram de 0 a 1 milhão em vendas em 2 anos demais, marketeiros digitais demais, GENTE "BEM-SUCEDIDA" DEMAIS. Não me entendam mal. Eu estou ironizando. Não sou contra o sucesso, obviamente. Mas acontece que a internet é terra sem lei, e na foto qualquer um pode aparentar ser o que quiser. No mundo real, quantos tem lucro? As estatísticas estão aí para quem quiser ver e não se deixar iludir. O Brasil ainda não é esse mar de gente linda e rica saindo pelo ladrão, ou só eu que não vi?

Eu gosto de acompanhar a blogosfera de finanças, a chamada "finansfera". Ali tem pessoas de carne e osso escrevendo. Tem de tudo: operários, funcionários públicos, empresários; gente que já ficou rica e gente que recém começou a poupar dinheiro. Mas falam a verdade, contam as coisas como se passaram, boas e más. 

Precisamos disso, de mais pessoas compartilhando experiências reais da vida empresarial. As agruras, os fracassos, os desalentos. As alegrias também, claro. É isso que eu pretendo fazer aqui, volta e meia. Abraço!

terça-feira, 5 de março de 2019

A clarificação dos conceitos como chave para a boa comunicação


Entre entender algo, e fazer outro alguém entender algo, há um processo que compreende três etapas. Primeiro, inteligimos um determinado objeto ou situação. Depois, articulamos essa experiência com os conceitos dos quais dispomos ou criamos novos; isto é, contamos para nós mesmos aquilo que inteligimos. Por fim, tentamos transmitir ao nosso interlocutor essa articulação.

Supondo que nossa articulação interna tenha sido bem feita (o que por si só já dá um trabalhão) essa comunicação será bem ou mal sucedida na medida em que o nosso interlocutor partilhar dos mesmos conceitos ou conseguirmos fazê-lo compreender os novos conceitos que criamos ou estamos tentando transmitir. 


A chave para a boa comunicação entre as pessoas, e em âmbito geral, na sociedade, portanto, são os conceitos em comum, e é justamente a falta deles que gera tantas discórdias e discussões infrutíferas. Não nos entendemos simplesmente porque não partilhamos dos mesmos conceitos.


Com a desintegração da língua e da alta cultura nos últimos 50 anos, perdemos essa tela de fundo que permite o câmbio racional de ideias, e nos tornamos um bando de loucos falando sozinhos na maior parte do tempo. “Esquerda”, “direita”, “racismo”, “fascismo” etc, por exemplo, assumem uma miríade de significados distintos para determinados grupos de pessoas, e muitas vezes é simplesmente IMPOSSÍVEL que esses grupos consigam conversar.


Somente quando os conceitos forem clarificados nas consciências é que poderá haver verdadeiro diálogo. Em prol da restauração cultural brasileira, e principalmente, do amor ao próximo, procuremos com caridade e paciência tentar fazer essa ponte conceitual entre nós e nosso interlocutor.

sábado, 2 de março de 2019

A intolerância dos esclarecidos

Comecei a assistir este documentário sobre os terraplanistas que entrou no Netflix . De início convém dizer que eu não acredito que a Terra seja plana - muito embora eu não tenha me detido a estudar o assunto, e é justamente esse aspecto do fenômeno que eu quero abordar neste artigo. O líder dos terraplanistas (segundo o documentário), Mark Sargent, se "converteu" ao movimento porque ele, como a maioria das pessoas, achava a teoria absurda e queria desbancar os argumentos um por um. Acabou se convencendo do contrário. Isso me lembrou a história do jornalista ateu que queria provar para sua esposa que o Cristianismo era falso, e ao empreender uma pesquisa minuciosa, acabou ele próprio se convertendo.

Ok, eu também acho os terraplanistas um tanto quanto excêntricos - os EUA parecem ser, desde sua fundação, terreno fértil para todo tipo de movimento sectário e comportamentos pitorescos - e o documentário parece enfatizar esse lado desde o começo. Mas que importa isso, no que diz respeito a um debate honesto? Um argumento não é mais ou menos válido se quem o diz usa terno e gravata ou polainas no verão.

Com todas as confusões e erros evidentes, os terraplanistas estão corretos em apontar e criticar os desvios do pensamento científico, como o cientificismo, a concepção de que somente a ciência tem autoridade a respeito da compreensão humana da realidade. Só que o documentário aborda isso como se fosse mais uma excentricidade, quando na verdade é uma crítica muito séria, feita também por filósofos de alto calibre.

A maioria dos cientistas entrevistados - com notáveis exceções, justiça seja feita - fala dos terraplanistas com absoluto desdém, beirando a falta de respeito. Acho intrigante e lamentável como pessoas que eu imagino que tenham um profundo amor pelo conhecimento e pela verdade - para terem assumido essa vocação, entrado nessa profissão - podem ser tão cegas com relação à sua própria atitude dogmática. Mas ora, será que se restringem a estudar apenas o seu campo de atuação imediato, sem conhecer minimamente a história da ciência, para ignorarem quantas descobertas notáveis foram feitas justamente por pessoas que divergiam da opinião dominante? Não era esse o mote (falso, diga-se de passagem; mas sigamos, para fins argumentativos) dos propagandistas do Iluminismo e da ciência moderna, de que "a Igreja Católica não permitia o pensamento livre, até que heróis como Giordano Bruno e Galileu Galilei se opuseram às trevas e ao obscurantismo, e contra tudo e contra todos, fizeram valer sua opinião contrária!"?

Carl Sagan, saudoso cientista e divulgador pop da ciência, um dia escreveu: "Toda pergunta é um grito para compreender o mundo. Não existem perguntas imbecis". Quiçá os esclarecidos de hoje possam aprender com ele um pouco sobre tolerância ao pensamento divergente.

O poder de um grande pregador

  Umas das marcas de um grande pregador, escritor, poeta, filósofo, enfim, homem de letras, homem de gênio, é a sua capacidade de infundir n...