sábado, 2 de março de 2019

A intolerância dos esclarecidos

Comecei a assistir este documentário sobre os terraplanistas que entrou no Netflix . De início convém dizer que eu não acredito que a Terra seja plana - muito embora eu não tenha me detido a estudar o assunto, e é justamente esse aspecto do fenômeno que eu quero abordar neste artigo. O líder dos terraplanistas (segundo o documentário), Mark Sargent, se "converteu" ao movimento porque ele, como a maioria das pessoas, achava a teoria absurda e queria desbancar os argumentos um por um. Acabou se convencendo do contrário. Isso me lembrou a história do jornalista ateu que queria provar para sua esposa que o Cristianismo era falso, e ao empreender uma pesquisa minuciosa, acabou ele próprio se convertendo.

Ok, eu também acho os terraplanistas um tanto quanto excêntricos - os EUA parecem ser, desde sua fundação, terreno fértil para todo tipo de movimento sectário e comportamentos pitorescos - e o documentário parece enfatizar esse lado desde o começo. Mas que importa isso, no que diz respeito a um debate honesto? Um argumento não é mais ou menos válido se quem o diz usa terno e gravata ou polainas no verão.

Com todas as confusões e erros evidentes, os terraplanistas estão corretos em apontar e criticar os desvios do pensamento científico, como o cientificismo, a concepção de que somente a ciência tem autoridade a respeito da compreensão humana da realidade. Só que o documentário aborda isso como se fosse mais uma excentricidade, quando na verdade é uma crítica muito séria, feita também por filósofos de alto calibre.

A maioria dos cientistas entrevistados - com notáveis exceções, justiça seja feita - fala dos terraplanistas com absoluto desdém, beirando a falta de respeito. Acho intrigante e lamentável como pessoas que eu imagino que tenham um profundo amor pelo conhecimento e pela verdade - para terem assumido essa vocação, entrado nessa profissão - podem ser tão cegas com relação à sua própria atitude dogmática. Mas ora, será que se restringem a estudar apenas o seu campo de atuação imediato, sem conhecer minimamente a história da ciência, para ignorarem quantas descobertas notáveis foram feitas justamente por pessoas que divergiam da opinião dominante? Não era esse o mote (falso, diga-se de passagem; mas sigamos, para fins argumentativos) dos propagandistas do Iluminismo e da ciência moderna, de que "a Igreja Católica não permitia o pensamento livre, até que heróis como Giordano Bruno e Galileu Galilei se opuseram às trevas e ao obscurantismo, e contra tudo e contra todos, fizeram valer sua opinião contrária!"?

Carl Sagan, saudoso cientista e divulgador pop da ciência, um dia escreveu: "Toda pergunta é um grito para compreender o mundo. Não existem perguntas imbecis". Quiçá os esclarecidos de hoje possam aprender com ele um pouco sobre tolerância ao pensamento divergente.

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O poder da escolha

  A liberdade, o poder da escolha...motivo da glória e desgraça da condição humana.