terça-feira, 19 de março de 2019

Resposta ao tempo


Uma das canções mais belas da MPB é “Resposta ao tempo”, composta por Aldir Blanc e Cristóvão Bastos e interpretada em sua versão mais famosa por Nana Caymmi.


A letra descreve o diálogo entre o misterioso narrador e a figura etérea do tempo.

Batidas na porta da frente
É o tempo
Eu bebo um pouquinho
Pra ter argumento...

O tempo vem ao encontro do narrador, que precisa usar de um pequeno expediente para ter coragem de enfrentá-lo. Não é assim conosco também? Quando temos 20 e poucos anos, a vida parece longa e cheia de possibilidades. Um belo dia, recebemos a fatídica visita do tempo: em um lampejo, às vezes atrelado a uma doença ou limitação física, percebemos que não somos mais jovens como antes, que a vida que nos resta pela frente está se esvaindo, inexoravelmente, como a areia na ampulheta. Nesse momento, infelizmente muitos escolhem virar as costas e fingir que não é com eles. Mas não passa de um autoengano, porque como já disse W.H. Auden:



Sim; talvez beber um pouquinho, que seja, mas enfrentar o tempo e suas armadilhas, com coragem e dignidade.

Mas fico sem jeito
Calado, ele ri
Ele zomba do quanto eu chorei
Porque sabe passar
E eu não sei

O narrador alude a uma dor que mais adiante deixará explícito se tratar de um amor perdido. O tempo faz troça da situação e o narrador confessa ao mesmo a superioridade daquele e a sua incapacidade de superar o ocorrido. O tempo sabe passar, o narrador, não; isto é, ele não consegue abandonar suas memórias. Não importa quantas vezes alguém diga para outro: “esqueça fulano(a)”, sabemos que não é assim que a coisa funciona.

Num dia azul de verão
Sinto o vento
Há folhas no meu coração
É o tempo...

As folhas no coração do narrador podem ser memórias, dores, cicatrizes.

Recordo um amor que perdi
Ele ri
Diz que somos iguais
Se eu notei
Pois não sabe ficar
E eu também não sei...

Aqui começam, para mim, os enigmas da letra. Por que o tempo diz que o narrador, assim como ele, não sabe ficar? Por ser humano e, portanto, efêmero, mortal? Porém, essa resposta não me satisfaz plenamente, pois mais adiante eu questiono se o narrador é realmente humano...

E gira em volta de mim
Sussurra que apaga os caminhos
Que amores terminam no escuro
Sozinhos...

O tempo parece de alguma forma querer subjugar e humilhar o narrador, em parte através de uma descrição inegável de sua força, em parte através de uma mentira disfarçada sob uma camada de cinismo.

Respondo que ele aprisiona
Eu liberto
Que ele adormece as paixões
Eu desperto...

Aqui é que a coisa começa a ficar realmente interessante. O narrador finalmente responde aos ataques do tempo, e à altura: já não parece mais se tratar de um mero ser humano, mas uma entidade superior, com poderes sobre aqueles. Mas quem ou quê? Quem liberta? Quem desperta as paixões? Uma criatura angélica? Outra entidade abstrata, como a alegria, a dor, o medo? Ou talvez eu esteja indo longe demais nas minhas elucubrações e o narrador esteja apenas se referindo às suas próprias paixões. Quem tiver alguma ideia, por favor comente.

E o tempo se rói
Com inveja de mim
Me vigia querendo aprender
Como eu morro de amor
Prá tentar reviver...

A resposta ao tempo surtiu efeito, e este foi abalado em sua confiança. O tempo agora não quer mais passar. Também quer ficar e sofrer, quer aprender a amar, e morrer.

No fundo é uma eterna criança
Que não soube amadurecer
Eu posso, e ele não vai poder
Me esquecer...

Ao cabo, é a vez do narrador dar uma lição de moral no tempo. Sim, quem não ama, quem não sofre, não sabe amadurecer. Só quem ama e morre de amor é capaz de se esquecer a si mesmo na contemplação do objeto amado, a ponto de perder a noção do tempo. O tempo, passageiro como é, só pode observar e lembrar.

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