sexta-feira, 2 de outubro de 2020

Como vasos quebrados

 


Quando visitamos nossos avós, vemos objetos com décadas de uso, e muitos em bom estado. Os mais antigos tinham a cultura de cuidar bem das suas coisas, limpar, guardar, consertar se algo estragava. 

Já nós vivemos em uma sociedade em que tantas vezes é mais barato comprar um item novo do que consertar o antigo que estragou ou está com defeito. Por um lado, isso é bom, porque é um sinal de abundância e prosperidade econômica, mas por outro lado, isso tem um efeito nefasto sobre a nossa consciência: criamos a cultura do descarte, e ela infelizmente acaba se expandindo para as relações humanas. Tratamos as pessoas também como descartáveis, em diversas ocasiões. Usamo-las para atingir nossos objetivos ou para nosso bel prazer, sem nos aprofundarmos nas relações.

Os japoneses têm uma técnica chamada "kintsukuroi", onde eles pegam um vaso quebrado e colam todas as pecinhas novamente, tornando belo mais uma vez algo que iria para o lixo. Dessa forma, um vaso antes genérico e bastante parecido com os outros, se torna único e especial.

E acontece que nós também somos como que vasos quebrados, feridos pelo pecado, e Deus não nos jogou fora no lixo. Pelo contrário, Ele quer colar as nossas peças também, se nós deixarmos.

E de certo modo, existe uma dignidade em nossas feridas saradas, em nossas cicatrizes, porque elas são lembranças de nossas lutas, do nosso começar e recomeçar. 

Há um episódio dos Cavaleiros do Zodíaco em que o herói Seiya enfrenta um cavaleiro de prata, mais poderoso que ele, chamado Misty de Lagarto. Misty era um cavaleiro que se orgulhava de jamais ter recebido um golpe em sua vida e desconhecer o que é a dor. 

Pois bem, tomou uma "tunda" do Seiya, que então lhe disse com muita propriedade: "Há muitas coisas que você não sabe. Ninguém pode ter orgulho de um corpo sem cicatrizes. Cicatrizes são provas de coragem, são verdadeiras medalhas da coragem. Como é que você que não conhece a dor quer obter a verdadeira vitória?"

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