domingo, 29 de novembro de 2020

A feiura da cruz

A guerra, muitas vezes, se nos apresenta como algo heroico. Contemplamos os feitos dos veteranos e enchemo-nos de admiração. Mas quando entrevistados a respeito dos seus atos, esses mesmos soldados se mostram incomodados, quase constrangidos, e respondem de forma estupeficante coisas como: "Eu fiz o que tinha que fazer", "Eu tive sorte, outros morreram", entre outras.

Fica implícita não só uma louvável humildade, mas também a impressão de que eles não gostaram do que fizeram. Realmente não se sentem orgulhosos. Cumpriram uma missão, mas não encontraram gozo nisso. Talvez as memórias dos horrores da guerra escurecem em seu interior qualquer brilho que seu heroísmo possa gerar.

A cruz também é assim. De fora, muitos falam da cruz com louvores, com romantismo. Mas será que já a viveram de fato? A cruz, quando se apresenta, é como a guerra. É pesada, dura, cheia de farpas. Não é bonita. Não é heroica. Não inspira quem a carrega. Para aquele que a carrega, a cruz é apenas sofrimento, e sofrimento aparentemente sem sentido.

Antes que os cruzados desembainhem as suas espadas, permaneçam em seus cavalos e prestem atenção: sim, a cruz é redenção. Mas apenas DEPOIS da ressurreição. ENQUANTO se está carregando, para QUEM está carregando, como eu disse, é só dor, contínua, dilacerante, entremeada por breves momento de alívio. Um copo de água. Uma toalha para enxugar o rosto ensanguentado. Alguém que se apresenta para ajudar a carregar a cruz.

Sejamos, portanto, menos frívolos ao falar da cruz.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Os palavrões da fé

Vivemos numa época em que, numa roda de conversa, falar palavras como "Deus", "Céu", "Inferno", "pecado&q...